A parte chata do trabalho

6 02 2009

Essa semana, os adoradores de futebol viram pegar fogo uma pequena bravata entre a ESPN Brasil e o técnico Muricy Ramalho. Após a muricy2derrota para o Santo André domingo passado, o treinador sãopaulino também perdeu a compostura ao ser desnecessariamente grosso com o repórter do canal de TV fechada Fernando Gavini. José Trajano, homem forte da “franquia” brasileira da emissora, comunicou na segunda-feira a decisão de não cobrir mais as coletivas pós-jogo do técnico tri-campeão brasileiro – já revogada após um esfarrapado pedido de desculpas de Muricy.

O ato de Muricy destaca que todas as profissões, mesmo as aparentemente mais legais do mundo, possuem seus lados negativos. Para o treinador, que visivelmente se estressa durante os jogos do seu time, não há tempo suficiente entre o final da partida e o início da entrevista coletiva para se recompor e enfrentar uma série de questões, para muitas das quais ele ainda não tem a resposta. Mas é obrigado a fazer, recebe os famosos “direitos de imagem” para se expor e expor os patrocinadores do seu clube ao tentar explicar fatos muitas vezes inexplicáveis.

Outro caso que pode ser destacado é o da entrevista do “dono” do Opeth, Mikael Åkerfeldt publicada na Roadie Crew desse mês. Mikael enfatiza odiar as turnês, apesar de gostar dos shows e do contato com os fãs. No entanto, sente-se desperdiçando tempo que seria mais bem aproveitado com suas filhas – uma das quais, gritava sem parar ao telefone pedindo a atenção do pai. Imagine quão chato não deve ser para o músico, cujo estilo de vida já o obriga a passar bem menos tempo do que gostaria com sua família, ainda ver uma criança suplicando pela sua atenção, mas seu “dever profissional” o obriga a conversar com um brasileiro por telefone. Apesar disso, diferentemente do treinador sãopaulino, o sueco foi extremamente simpático e solícito durante todo o bate-papo, sem se furtar a responder sobre qualquer coisa.

opeth1Entre os assuntos abordados na entrevista – mas não publicados por questão de espaço da revista -, Mikael declarou estar bem feliz com a relação entre os seus atuais companheiros de Opeth e, para ilustrar como é difícil a vida na estrada, usou seu amigo Mike Portnoy, baterista do Dream Theater, como exemplo. Segundo o sueco, Portnoy se surpreendera ao ver como o grupo de Mikael se portava como uma “galera”, no sentido de ficarem juntos, mesmo sem fazer nada, mas ainda assim se divertindo. Portnoy não se lembrava da última vez em que os seus companheiros de banda tiveram um relacionamento dessa forma.

É uma ilustração de como o desejo da plenitude da vida na estrada também pode ser corrompido por momentos em que se torna algo tão profissional e burocrático quanto o emprego público mais chato num escritório. Portnoy, que já chegou a pensar em abandonar o Dream Theater em momentos de crises mais agudas com relação ao empresariamento da banda, hoje parece aceitar passivamente uma relação meramente de trabalho com seus companheiros e, pelas palavras de Mikael Åkerfeldt e como o próprio baterista já afirmou, tem saudades de quando tudo era apenas um sonho entre amigos – não à toa, o músico é visto em inúmeros projetos paralelos, onde parece residir a diversão do negócio musical escolhido para ser seu ganha-pão.

Muricy Ramalho, Mikael Åkerfeldt e Mike Portnoy têm muito em comum. Todos são reconhecidos pelo trabalho que realizam, mas deixam claro não ser tudo um conto de fadas na profissão escolhida. Ao seu modo, cada um lida com seus problemas. Talvez sirva para vermos não acontecer apenas conosco de acordarmos, vez ou outra, com aquele desejo incontrolável de mandar tudo para o alto e procurar algo novo a fazer na vida.

Por Thiago Martins
Fotos: Wander Roberto/VIPCOMM (Muricy Ramalho) e Thiago Martins (Mikael Åkerfeldt)


Ações

Information

14 responses

7 02 2009
Wellington

O Muricy é um mala. O Mike Portnoy é outro mala. O Mikael Akerfeldt é o único que se salva dos três.

7 02 2009
Renato-SPFC

O Muricy trabalha muito, mas nem eu o suporto mais.

7 02 2009
SCCP-Gaviao

Esse Muricy é um mané, não respeita ninguém.

O Mike Portnoy também sempre foi babaca.

7 02 2009
eric

Bom o texto, Thiago. Acho que o Muricy deveria se esforçar mais pra tentar ser menos grosso, mas em sua defesa, vários jornalistas são-paulinos e/ou setoristas do SPFC afirmaram que tem muitos colegas de trabalho que vão lá pra ver o circo pegar fogo, já direcionando o teor das perguntas para algo que eles sabem que enfurecerá o Muricy.

Não quero, com isso, dizer que a grosseria dele é justificável, mas a imprensa está LONGE de ser a vítima da história.

O mesmo com relação à midia no meio musical, mais especificamente do rock/metal, que é o assunto principal por aqui. Muitos jornalistas do meio tentam arrancar opiniões polêmicas de músicos com perguntas inconvenientes para vender revista, ou acessos em site, e é muito triste ver que uma profissão que deveria ter como meta a informação está se perdendo numa cruzada em busca de “barracos”.

Que fique claro que não me refiro a Roadie Crew, acompanhei a revista da edição 30 até a edição 80, praticamente, e sempre achei as entrevistas muito éticas, mas vocês com certeza sabem que nem todo mundo tem esse posicionamento profissional.

Abraço

7 02 2009
Lucas

“O Muricy é um mala.” Pode até ser, mais é o melhor do Brasil hoje, e olha q eu sou palmeirense.
“O Mike Portnoy é outro mala.” Não axo, já vi N entrevistas com ele e ele sempre foi mto solicito.
“O Mikael Akerfeldt é o único que se salva dos três.” É um puta músico e profissional!

Grande matéria Solada.
Congratulations one more time!

7 02 2009
samir

o engraçado e inexplicável fica por conta do fato de o Muricy ser “chato” e “ranzinza” (entre aspas, pq isso foi uma imagem caricata que fizeram dele) DESDE SEMPRE, inclusive nas vitórias e nos títulos! Porém, agora querem justificar o tal “mau-humor” com a derrota (após 6 MESES, é bom destacar!), criando algo do tipo “ele não sabe perder”… é triste como as pessoas tendem a simplificar as coisas de modo tão leviano…

no mais, alguém duvida que a ‘risadinha’ do repórter alvo do assunto não foi nada irônica? O Muricy não é bobo, e já provou isso de inúmeras formas…

e, infelizmente, como disseram alguns comentários acima, fica parecendo que a imprensa é vítima de algo pelo qual ela é a maior culpada… e nem entrei no mérito de as perguntas serem reiteradas e rigorosamente AS MESMAS, em qq situação… porém, se adicionarmos sarcasmo e pouco caso a tudo isso, qq um tem o direito de se irritar…

gostei muito do texto, mas acredito que nos casos de Opeth e Dream Theater a situação é um tanto diversa… a distância em relação à família deve doer, mas a pressão e as ironias são menores em situações como entrevistas, acredito eu (o que não os impede de ler/ouvir inúmeros absurdos, obviamente, por parte de imprensa ou mesmo dos fãs)… mundos realmente ingratos estes!

7 02 2009
glaydson tricolor

Muriçoca exagera mesmo às vezes..

Semana passada um outro jornalista pergfuntou sobre a dupla
Washington x Dagol-Borges e ele foi com 5 pedras pra cima do cara..

Ele tava irritado com um jornalista anterior, mas esculachou o primeiro que viu pela frente..

Foda

8 02 2009
Sérgio Henrique Ribeiro da Silva

Por que a ESPN só tomou essa medida agora? Quase 4 anos depois que o Muricy tá no convívio deles? Ele é grosseiro, sempre foi, e não é grosseiro de filho da puta, é grosseiro por que é. Ele que regule a grosseria dele.

Mas ele não caga na cabeça de repórter de hoje nem de ontem, sempre foi assim, queria muito ver tomar uma decisão dessa numa semana de final envolvendo o São Paulo. Aguentar o cara cagando na tua cabeça é insuportável mesmo, mas existe um consenso na imprensa que quando é ele é “folclore”, ” Ele é assim mesmo” dizem, então tá, aguenta agora. Até por que esse negócio de dar entrevista dentro do campo, depois do jogo, porra não pode ser mais insuportável. Qualquer hora dessas eles vão tomar marretaço dum menos esquentado e aí fica como? Tem que se ver também como a imprensa trabalha nisso tudo, ela mais instiga e fica fazendo mexerico do que buscando respostas de fato.

8 02 2009
Alexandre

É.. todo mundo tem que fazer seu trabalho, e todo trabalho tem seu lado ‘chato’, mas assim como existem os maus exemplos no trato com o lado ‘ruim da profissão’, existem os bons exemplos, como o jornalista que perguntou sobre a dupla de ataque e tomou a espinafrada , citada aqui,(que não foi tão agressiva como no caso do Fernando Gavini da ESPN), foi o repórter da Rádio Transamérica, que além de colocar a espinafrada no ar e em tom de brincadeira com seus colegas dizia já estar acostumado com o treinador e estava começando a sentir falta de quando não era espinafrado pelo mesmo… Ou seja, sabe conviver bem com ‘a parte chata de seu trabalho’

8 02 2009
Thiago Martins

Bom, vou tentar responder a todos em um só post!

Alexandre, não acho que o lado ruim da profissão do repórter seja fazer de uma entrevista “limão” uma matéria “limonada”. Isso é a função dele. Ruim deve ser, por exemplo, um jornalista da Sportv não poder criticar abertamente à FPF pela irresponsabilidade ocorrida ontem no Pacaembu, ao ignorar seu regulamento e, após quase de 1h30 de interrupção, reiniciar a partida entre Corinthians x Portuguesa, pois seu patrão está ligado à causa de tal decisão.

Sérgio, eu também acho que demoraram muito para tomar uma decisão mais enérgica quanto às grosserias do Muricy – da mesma forma acho que lidaram de uma forma muito leve (eu teria sido mais formal com a diretoria do SPFC) e revogaram o boicote sem lá muito motivo. Acredito que, se fosse o Luxemburgo quem desse tal patada, talvez houve uma decisão mais enérgica.

Samir, acho que a risadinha do Gavini veio mais em uma resposta de alguém acuado do que para provocar. A grosseria inicial do Muricy foi gratuita, o Gavini ficou meio sem saber como reagir e acabou se defendendo dessa forma.

Eric, eu acho que a única vítima nessa situação toda é sempre o cidadão. A imprensa, boa ou ruim, é um intermediário entre a pessoa comum e o fato de interesse público. Se o Muricy não responde às perguntas e um dos melhores canais esportivos resolve não participar mais de suas coletivas, o torcedor do SPFC terá informação de pior qualidade.

Quanto à mídia de entretenimento (cultura/esporte etc.), a divisão entre o que é interesse público e interesse do público é menos clara do que em outros setores (política/sociedade/economia etc.). É difícil saber até quando a vida pessoal da pessoa interfere na sua atividade (vide o post do Sarkis sobre o Ronaldo) – e isso é ainda pior na área cultural, em que a idolatria também pressupõe a vida pessoal, vide a máxima “sexo, drogas e rock’n’roll”. Por exemplo, quando uma banda se separa por motivos pessoais, é legítimo querer saber o que aconteceu e a declaração tenderá a ser bombástica. Pela dificuldade em conseguir enxergar esses limites, boa parte da imprensa segue pelo caminho mais rápido e que vende mais, que é o sensacionalismo barato.

Por fim, tanto o Mikael Åkerfeldt quanto o Mike Portnoy sempre me foram pessoas muito solícitas e simpáticas, mas, algumas das atitudes do baterista não me soam bem, como uma recente desautorização pública em seu fórum de uma declaração do LaBrie sobre o novo álbum do Dream Theater, que poderia ter sido feita de uma forma menos confrontadora. E, apesar de o Muricy ser mala, é um ótimo treinador e, de certo modo, parece-me uma pessoa íntegra (embora eu não bote a mão no fogo por qualquer um desse meio).

8 02 2009
warchild

tudo começa com M xD

9 02 2009
Paula

Especular é fácil. Escrever baseado em fatos já parece complexo demais pro autor…

11 02 2009
Thiago Martins

Paula… você pode desenvolver um pouco mais o seu comentário? A quais especulações vocês se refere? O que seria escrever esse texto com base em fatos reais? Podemos deixar a crítica mais construtiva?

14 02 2009
Leandro Cardoso

Eu acho engraçado!!!! Quando o Muricy ganha uma partida ou título, vai correndo para a coletiva, para todos ficarem “lambendo o saco”, pois qual egocentrista não curte isso não é mesmo?
Agora, quando perde uma mísera partida, fica todo irritadinho? Onde está a ética, o profissionalismo e principalmente a educação?
E isso não acontece só com o Muricy, são todos eles, jogadores e técnicos. E a grande culpada disso é a mídia esportiva, que transforma simples caipiras em pseudo-deuses arrogantes e prepotentes. Aprenda o que é a vida Muricy Ramalho!!! E patético também foi, o José Trajano dizer que iria boicotar (o que está certo) a falta de educação desse senhor, e o mesmo, um dia depois, não querendo perder seu holofote, se desculpa e a ESPN aceita e volta atrás! Esse é o pão e circo do Brasil mesmo, me dão pena!!!

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