David Campbell fala de "The Unforgiven III" e "Kiss Symphony"

David Campbell e Kiss ao vivo

David Campbell e Kiss ao vivo

Entrevistar David Campbell é uma honra e uma insatisfação garantida. Se por um lado, é incrível falar com um regente, arranjador e compositor tão gabaritado, conceituado e requisitado, por outro é frustrante perceber que uma, duas, três horas não são suficientes para abordar todos os seus projetos e trabalhos para e com bandas e músicos como Paul McCartney, Willie Nelson, Phil Collins, Aerosmith, Wilco, Maroon 5, Michael Jackson, Sinead O’Connor, Cher, Goo Goo Dolls, Weezer, Mötley Crüe, Sheryl Crow, The Rolling Stones, Bon Jovi, Marvin Gaye, Jerry Lee Lewis e B.B. King. Detentor de um dos mais impressionantes currículos da música mundial, David – como aparece em destaque em seu site – participou de mais de cinqüenta álbuns premiados com o Grammy e de dois que levaram o Oscar. Tentar conversar sobre todas estas realizações com ele é bobagem. Melhor deixarmos que seu filho, o músico Beck, busque estas informações com o pai. Por ora, o tímido regente nos contou sobre o maior sucesso recente de sua carreira: Death Magnetic (2008 ) do Metallica, no qual teve pequena, embora circunstancial participação. Ainda deu tempo de comentarmos sua regência na festa organizada pelo Kiss com a Orquestra Sinfônica de Melbourne, registrada em Kiss Symphony: Alive IV (2003). Por enquanto, é “só”.

Em seu site oficial [N. do E.: link no final da entrevista], há alguns esclarecimentos sobre o seu trabalho, mas, o ouvinte padrão de música geralmente não sabe com exatidão as funções de um arranjador. Você poderia falar sobre isso aos nossos leitores?
David Campbell:
Claro. Ótima idéia. É um trabalho um pouco enigmático mesmo. Às vezes, é difícil compreender nossa função ou participação em uma composição. Tentarei ser bem acessível para que todos entendam. Imaginem uma música qualquer com instrumentos básicos geralmente usados pelas bandas: há os vocais, as guitarras, talvez um teclado ou um piano, bateria e baixo. Pronto, melodias, harmonias, ritmos, algo padrão. Porém, do original criado pelo músico surgem várias versões, possibilidades, variações. Além disso, é preciso organizar e acertar todas as idéias, pois assim você viabiliza o surgimento de mais criações no contexto da peça original. O arranjador entra em cena neste momento e pode adicionar muito ao que o artista imaginou, mas não conseguia efetivar; às vezes, por não ser de interesse dele, noutras somente por ele não ter um conhecimento teórico mais profundo, o que não é demérito também. A criatividade é essencial, e já conheci músicos incríveis que pouco sabem de teoria.

Você trabalha a criação do músico e faz os arranjos ou com os instrumentos padrões, como você disse, ou com outros instrumentos.
David Campbell:
Isso. O artista me entrega sua música e faz com que eu a trabalhe. Muitas vezes as bandas querem mais instrumentos como violinos, violas, metais, mas não sabem como inseri-los ou adaptá-los às composições. Entro em ação e faço os arranjos, sugiro melodias, ritmos, harmonias, digo o que penso que pode ou não funcionar em determinada música. Aí vai da disposição de cada grupo a ouvir e aceitar minhas idéias.

Certo. O trabalho em Death Magnetic foi o seu primeiro com o Metallica, não?
David Campbell:
Sim. Eles me procuraram em março ou abril de 2008. Já fiz várias parcerias com Rick Rubin [produtor do disco] e ele sugeriu meu nome ao Metallica e me enviou uma faixa para que eu trabalhasse nela. Era The Unforgiven III.

Você foi o responsável pelas melodias e harmonias que ouvimos da seção de cordas em The Unforgiven III ou todas aquelas idéias partiram da banda?
David Campbell:
Foi uma parceria. Eles tinham algumas idéias e conversei muito com Rick Rubin sobre o que poderíamos fazer na música. O Metallica estava em turnê na época e isso dificultava contato mais próximo e troca frequente de informações entre nós, no entanto, eles gostaram do que sugeri e me deram liberdade para trabalhar e criar várias coisas. Parti do conceito e da peça original deles e adicionei um pouco à composição.

Você já havia escutado as duas partes anteriores de The Unforgiven antes de iniciar os trabalhos nesta terceira parte música?
David Campbell:
Sim. Eu já havia escutado as duas músicas e logo que fui contatado para trabalhar na terceira parte, procurei novamente ouvi-las com máxima atenção. Eu precisava compreender e me aproximar do conceito deles nesta composição.

David Campbell em ação

David Campbell em ação

Apesar de seu contato com as versões anteriores, elementos fundadores das introduções das duas primeiras partes de The Unforgiven não aparecem em The Unforgiven III, o que incomodou alguns fãs da banda.
David Campbell:
[N. do E.: interrompendo…] Sim, claro, sei do que você está falando, principalmente o som que abria as duas músicas anteriores. Bem, tudo que recebi deles foram idéias para The Unforgiven III, e não havia exigências no que diz respeito a repetirmos aquilo, tampouco seguirmos necessariamente a mesma linha do instrumental de The Unforgiven e The Unforgiven II. Não sou a pessoa mais adequada para falar deste assunto, mas talvez haja uma razão para que eles pensassem nesta terceira parte de uma forma um pouco diferente.

Você sentiu potencial em outras músicas de Death Magnetic para arranjos como os de The Unforgiven III e partes mais orquestrais?
David Campbell:
Certamente, mas isso é normal. Eu sempre encontro um lugar nas composições para orquestrações e arranjos. Toda vez que escuto uma música, penso onde o músico poderia ter utilizado e/ou adicionado isso ou aquilo.

“(…) o Metallica soa como uma extensão moderna, sombria e avassaladora de óperas como as de Wagner.”

Em quais músicas de Death Magnetic você, digamos, “ouviu” estes arranjos orquestrais?
David Campbell:
Ouvi o álbum novamente esta semana e há algumas músicas onde obviamente existem espaços para estes arranjos. The Day That Never Comes seria uma opção lógica. Acredito que qualquer um consegue pensar em uma seção de cordas nesta música. Particularmente, porém, prefiro imaginar experimentos em faixas aparentemente não tão explícitas ou prontas para trabalhos como o que fiz em The Unforgiven III. Aparentemente! Fiquei muito atento e encantado com as variações de All Nightmare Long e My Apocalypse. São músicas incríveis de dinâmicas sensacionais. Como músico clássico, eu lhe digo: para mim, o Metallica soa como uma extensão moderna, sombria e avassaladora de óperas como as de Wagner. Veja que os dois suscitam discussões e não são aceitos facilmente, principalmente por ouvidos menos treinados. Não só isso, ambos causam polêmica com o que fazem. Wagner, inicialmente, também foi muito contestado em sua época, às vezes discriminado.

Você pensa que toda esta história de volta do Metallica às raízes em Death Magnetic pode ter influenciado na decisão deles de uso limitado de partes orquestrais?
David Campbell:
É possível. É totalmente coerente imaginarmos isso. Se eles queriam mostrar que estavam voltando às suas raízes, nada mais natural que serem diretos e não trabalharem tanto com arranjos orquestrais. Além disso, eles já fizeram um álbum com orquestra [N. do E.: S&M de 1999]. De qualquer maneira, acho que All Nightmare Long e My Apocalypse teriam ficado incríveis com grandes orquestrações.

Você sugeriu isso a eles?
David Campbell:
Não. Eles estavam muito concentrados em The Unforgiven III. Essa era a música para a qual eles pensaram os arranjos desta forma que estamos falando. É compreensível perante as circunstâncias e tudo que já conversamos. Não vejo razão para que eles pensassem de outra forma, e não senti que seria o momento de sugerir isso. Percebi que a atmosfera era outra.

Qual membro lhe pareceu mais envolvido e interessado em seu trabalho para The Unforgiven III?
David Campbell:
Eu não sei se dá para falar em um membro apenas, até porque muitas das conversas que tivemos foram por intermédio de Rick Rubin. De qualquer forma, acredito que James Hetfield se envolveu um pouco mais que os outros integrantes no que se refere à introdução de The Unforgiven III, até porque ele tocou o piano do início da música. Não sei se é ele quem toca na versão que foi lançada, pois Rick e a banda queriam o som original e autêntico de um piano de cauda e as gravações de James foram realizadas em um piano digital. Como o grupo estava muito ocupado e com a agenda cheia, não tenho certeza se James teve tempo de sentar frente a um piano de cauda e tocar novamente a música antes do lançamento do álbum. Talvez alguém os tenha auxiliado.

Paul McCartney, Raven Kane e David

Paul McCartney, Raven Kane e David

Em trabalhos com outros grupos e artistas, você, além de reger orquestras, tocou alguns instrumentos. Isso aconteceu também em Death Magnetic?
David Campbell:
Não. Eu poderia ter tocado, mas preferi me dedicar apenas à regência e deixar que outros músicos executassem as partes que escrevemos. Foi um processo mais sofisticado e que demandou maior atenção e controle do regente. Achei melhor deixar os músicos com quem trabalhei tocarem a música várias vezes e sentirem-na intensamente e melhor.

Especialmente após a versão de Death Magnetic para o jogo Guitar Hero vazar na Internet, houve muita polêmica quanto ao som do álbum, excessivamente comprimido, alto demais. Qual é a sua opinião sobre isso?
David Campbell:
Eu ouvi comentários sobre isso, mas honestamente não escutei a versão de Death Magnetic para Guitar Hero, então é difícil falar precisamente sobre este assunto. O que posso dizer é que atualmente realmente há uma tendência na indústria fonográfica de gravações que colocam o som tão alto que acabam asfixiando e desvirtuando a essência e os movimentos e variações das músicas. Gosto muito do álbum, porém, certamente seria interessante escutar uma versão diferente dele, talvez com o som não tão comprimido. De qualquer forma, curto o disco como ele é. Soa bem.

Outro trabalho seu de muita repercussão foi com o Kiss em Kiss Symphony: Alive IV, no qual você regeu a Orquestra Sinfônica de Melbourne. Conte-nos um pouco sobre aquela experiência.
David Campbell:
Foi uma experiência bem diferente desta que tive com o Metallica. Para começar, foi ao vivo. Em segundo lugar, as músicas do Kiss nas quais trabalhamos são muito simples. Elas são perfeitas para aquelas orquestrações bombásticas que preparamos. Não encontrei muitas dificuldades em fazer os arranjos. É como se o que eles compuseram simplesmente estivesse pronto para a participação grandiosa e direta de uma orquestra.

“(…) em algumas partes de Rock And Roll All Nite eu olhei para os violinistas, e a maioria deles estava em pé nas cadeiras, dançando e cantando como se estivessem em uma festa.”

O que não deve ter sido fácil foi convencer uma orquestra sinfônica a subir ao palco com maquiagens como as do Kiss.
David Campbell:
(risos) Essa teria sido uma tarefa quase possível, se não fosse pela disponibilidade dos músicos australianos. Eu lhe digo com absoluta segurança: praticamente todas as principais orquestras sinfônicas do mundo sequer cogitariam subir ao palco com aquelas roupas e maquiagens. Raras vezes me diverti tanto na vida e isso só aconteceu porque a Orquestra Sinfônica de Melbourne compreendeu e se envolveu completamente com a idéia daquele show. Não sei se as pessoas conseguem perceber isso no DVD, mas em algumas partes de Rock And Roll All Nite eu olhei para os violinistas, e a maioria deles estava em pé nas cadeiras, dançando e cantando como se estivessem em uma festa. Depois, então, ficou pior. Foi uma bagunça. Havia tanta fumaça e papeis voando que nos últimos acordes eu já não conseguia enxergar os músicos (risos). Foi muito divertido.

David, Raven e Beck

David, Raven e Beck

Eu gostaria de falar sobre seus trabalhos com artistas de Pop, Country, Rock etc. Contudo, sei que nosso tempo está se esgotando e que nestes minutos finais extrairíamos pouco de sua vasta discografia. Então, para finalizar, deixemos o regente de lado e falemos de David Campbell, pai de Beck. Você se importaria de nos dizer um pouco de sua relação com seu filho e da obra dele?
David Campbell:
Não. Acho ótimo falar de meu filho. Acredito que a obra de Beck reflete a personalidade e a educação dele. Imagine você crescer com um pai que trabalha com música vinte e quatro horas por dia e que gravou com artistas de todos os estilos: Pop, Hip Hop, Rock, Jazz etc. É uma loucura. A música de Beck, no entanto, vai muito além das minhas realizações. Ela é a combinação de um músico apaixonado e curioso que não para de procurar novos sons e descobrir grandes artistas. A vida dele é isso. Ele é um colecionador com uma discoteca espantosa. Não faço idéia de quantos discos ele possui. É inacreditável. Penso que esta paixão pela música é evidenciada nos álbuns dele. Não há estilo específico ou limites. Ele lança compilações de influências, aprendizados e de uma criatividade que muito me orgulha.

Foi uma honra entrevistá-lo, David. Obrigado!
David Campbell:
Espero que possamos conversar novamente e falar dos outros trabalhos que fiz e que infelizmente nós não conseguimos comentar desta vez. Realmente preciso ir agora. Aguardo seu contato para termos outra boa conversa sobre música e esta carreira maluca à qual me dediquei. Obrigado pelo interesse.

davidcampbelltop5

Por Thiago Sarkis

Site Oficial: www.davidmusic.com

13 responses

19 02 2009
Roberto Filho

Muito boa a entrevista sarkis,com certeza tbm vou cobrar continuação hehe

19 02 2009
Lucas

A ‘performance’ dele com a orquestra no dvd do Alive IV é mto legal, Um dos melhores dvds do KISS!!!

19 02 2009
Dehò

Show

20 02 2009
glaydson tricolor

Um detalhe a se ressaltar é que a The Unforgiven III é tão ruim que nem com as mãos desse gabaritado profissional ela conseguiu ficar boa.

Nunca deveriam ter mexido nela!

Parabéns Sarkis, bem esclarecedora a conversa!

20 02 2009
balltongue

The Unforgiven III é bem legal e ficou q mete medo com piano, xenial idea. Parabéns pra MetallicA por este grande album, e voltade axiña á GaliZa!!!!

20 02 2009
Marcos Vale

Parabéns Sarkis, por mais um trabalho de qualidade, diversidade e abrangência. Como fã que sou da fusão entre o rock e a música clássica, fiquei realmente feliz com a entrevista e todos os pontos abordados por David. É uma fusão positiva e que enriquece os estilos musicais e, especialmente, a formação do senso crítico do ouvinte.

Parabéns!

20 02 2009
Jullian

Metallica sempre será Metallica sou fã de carteirinha e só hoje nos meus 21 anos e tendo banda entendo a complexidade do Metallica, o Metallica é bom porquê nunca será compreendido em seu tempo atual e sim futuramente, antes diziam que o black album era isso e aquilo hoje é um disco conceito pra muitas bandas e pessoas, assim como Led Zepellin e cia não eram compreendidos em suas épocas pois estavam a frente de seu tempo o Metallica está nesse barco esse disco será conceito daqui a 5 ou 10 anos.

It comes to alive!!!!!!!!!!

20 02 2009
samir

opa, e os 5 álbuns de todos os tempos? aposto que haveria coisas inetressantes🙂

outra bela sacada do site… além de muito esclarecedora!

21 02 2009
carmelita maria

ótima entrevista, muito bem feita, com perguntas que vão além do que eu já li em outras publicações.

22 02 2009
Leandro Cardoso

Mais uma excelente e curiosa matéria. Sarkis, sempre primou por fugir do chamado “lugar comum” em suas entrevistas na Roadie Crew e aqui no Solada ele pôde explorar tudo isso. Não conhecia Dave Campbell, bem, eu tenho o bom Alive IV do Kiss e devo ter visto o nome dele, mas não me lembrava. Não sabia que ele era o pai do Beck. Infelizmente, a música do seu filho é um porre para mim,hehe. Mas, gostei muito da entrevista.
Só que, Unforgiven III é muito chata e é um ponto destoante deste bom Death Magnetic do Metallica.

23 02 2009
Franco

Bem legal a entrevista! Eu gostei da The Unforgiven III, mesmo não tendo o som do navio no início. O piano deu uma nova cara à trilogia.

Gostei de saber do trabalho dele com o Kiss também. Vi uns vídeos no youtube e realmente é bem legal ver a Rock N Roll All Nite, os músicos se divertindo com a música, batendo palmas e com maquiagens.

Valeu!

10 09 2009
Sander

muito bom!!! go go go METALLICA \m/

22 02 2010
Sávio

Muito porrada essa entrevista. A Comparação com Wagner é mui feliz e eu compararia o som do Metallica até mesmo com o de Beethoven, mas isos é outro assunto. Demais. O Metallica está com a Força!!

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