Dark Tranquillity: sem perder o foco

Foto por Karim Hautom

Foto por Karim Hautom

O Dark Tranquillity firmou-se rapidamente como um dos pioneiros do Death Metal Melódico de Gotemburgo no início dos anos noventa com Skydancer (1993) e The Gallery (1995). Em The Mind’s I (1997), indicou que os anos seguintes seriam de experimentos e assunção de riscos. Não deu outra. Projector (1999), Haven (2000) e Damage Done (2002) apresentaram músicas mais cadenciadas, atmosféricas, frequentemente explorando elementos eletrônicos. Já Character (2005) amainou os que se indignavam com os três discos que o precederam e mostrou a cara de um grupo que flertou com outras vertentes sem jamais perder o foco. Fiction (2007) apenas comprovou o que seu antecessor elucidara e fez com que o sexteto sueco caísse novamente nas graças de (quase) todos. Pensando em próximo DVD e projetando novo álbum, o vocalista Mikael Stanne falou ao Solada sobre suas inspirações, idéias, o mais recente material que gravou, a turnê nas Américas do Sul e Central em 2008 que não incluiu o Brasil, e a chegada do baixista Daniel Antonsson.

Li em algumas entrevistas que vocês compuseram algumas partes de Fiction ainda em turnê, na estrada. Esta foi uma experiência incomum para o Dark Tranquillity?
Mikael Stanne:
Até que não. Nós não gostamos de desperdiçar boas idéias. Sempre que aparece algo bom, registramos. Geralmente, porém, preferimos trabalhar em casa, compor as músicas em um lugar mais tranqüilo, nosso. O fato é que, às vezes, ainda na estrada, surgem riffs legais e aproveitamos estas idéias, ou buscamos ao menos gravá-las para conferirmos os resultados depois. A maior parte do material de Fiction veio do método usual do Dark Tranquillity; aqui na Suécia, escrevendo algumas coisas. De toda forma, não deixamos de criar enquanto excursionávamos.

Você é um músico que gosta de excursionar, não? Mais que a maioria, digo. Já o encontrei algumas vezes em shows e não me lembro de tê-lo visto uma vez sequer emburrado.
Mikael Stanne:
(risos) Mesmo? Onde você me viu?

Em várias ocasiões e não me esqueço de você em um “Graspop” na Bélgica no meio da multidão enlouquecendo no show do Dio minutos antes de um show do próprio Dark Tranquillity.
Mikael Stanne:
(gargalhadas) Foi bom para me aquecer para o show do Dark Tranquillity (risos). Eu realmente piro ouvindo Dio. É demais. Não consigo deixar de cantar as músicas dele. Eu queria ter assistido mais daquele show no “Graspop”, mas, havia nossa apresentação (risos). Existem coisas negativas sobre a vida na estrada e os aspectos ruins geralmente aparecem em longas excursões. Porém, a vibração que a gente assim que sobe ao palco é indescritível. Não importa se no dia seguinte você vá ficar acabado ou se sentir um lixo; a empolgação de um show no qual tudo dá certo e a banda tem uma atuação fenomenal faz com que dificuldades e conflitos valham a pena.

Voltando ao álbum Fiction, o que o Dark Tranquillity objetivava para este disco quando começou a compô-lo?
Mikael Stanne:
Trabalhamos em Fiction pensando em escrever músicas que não fossem apenas complementos para o disco. Queríamos composições realmente expressivas. Desta maneira, ficamos em cima de cada faixa e, às vezes, quando sentíamos que ela não renderia o que esperávamos, até chegávamos a descartá-la e começar do zero. Buscamos produzir um material coeso que os fãs desejassem ouvir de cabo a rabo.

No que tange às letras, você chegou a afirmar que buscou projetar toda a sua imaginação em outras pessoas, afastando-se dos personagens das músicas de Fiction. Como foi isso?
Mikael Stanne:
Foi um trabalho difícil, porque é complicado se manter distante daquilo que você escreve. Você sabe disso. A gente acaba se envolvendo no processo de uma forma ou de outra. Porém, tentei dar aos personagens de Fiction sentimentos e características de pessoas que conheço. Por exemplo, em músicas nas quais falo de solidão, inspirei-me em amigos ou figuras imaginárias que vivem sozinhas, isoladas, angustiadas, e que sentem intensamente todas estas coisas.

Mesmo projetando características e sentimentos em outras pessoas, você enxergou semelhanças entre a sua personalidade a as dos personagens que criou?
Mikael Stanne:
Sim. Há muito de mim nestes personagens que criei, sem dúvida. No início, não gostei disso, mas, quando começamos a turnê e tocamos as músicas novas ao vivo, percebi que foi excelente. A proximidade com aquilo que canto é fundamental para que eu atue melhor. Vibro mais falando de sentimentos que têm a ver comigo e me supero ao interpretar tudo isso.

Foto por Niklas Sundin

Foto por Niklas Sundin

Se você pudesse resumir o que este álbum aborda em termos de sentimentos, o que nos diria?
Mikael Stanne:
Algumas letras de Fiction podem soar depressivas, mas não é de depressão que falo no álbum. Acredito que os sentimentos e as sensações predominantes nas músicas têm a ver com medo, insegurança, pressões e cobranças internas, expectativas que criamos para nós mesmos, ansiedades quanto ao futuro e à vida.

Há alguma ligação entre o que você fala nas músicas e a carreira do Dark Tranquillity?
Mikael Stanne:
Sim, em vários sentidos. Vivemos pressões constantemente. Temos que corresponder às expectativas dos fãs e às nossas, ficamos ansiosos quando trabalhamos em um álbum. Enfim, tem muito a ver, definitivamente. O importante é que aprendemos a lidar com essas coisas e a explorá-las de forma que elas não nos façam mal. Atualmente, elas são aliadas do Dark Tranquillity.

Antes de qualquer trabalho mais rígido de mixagem e produção, o que você sentiu do material de Fiction?
Mikael Stanne:
Eu sabia que tínhamos algo muito, muito bom em mãos. Não era perfeito; sem esse papo hipócrita de que tudo é uma maravilha. Contudo, foi o que queríamos e o que nos agradou. Sabíamos que o material renderia bem ao vivo e os shows realmente têm sido ótimos. Estávamos cientes que a mixagem e a produção guiadas por nós e por Tue Madsen elevariam a qualidade das composições. Fiction não nos desapontou quando o finalizamos, e ainda hoje estamos felizes com o que realizamos nele.

Falando em turnês, por que, afinal, o Dark Tranquillity veio para a América do Sul e não tocou no Brasil?
Mikael Stanne:
É inexplicável e fico chateado com isso. Havíamos agendado shows em outros lugares e infelizmente tivemos que cancelá-los. Quando uma banda vai às Américas do Sul e Central, quer tocar no Brasil. Porém, algo muito além de nosso controle ocorreu e os promotores não conseguiram ou não quiseram organizar datas para apresentações nossas aí. Infelizmente, hoje tenho que dizer aos brasileiros que aproveitamos muito a turnê e os shows que realizamos na Costa Rica, no México, na Venezuela etc. Foram experiências insanas. É uma realidade diferente da européia no que se refere a shows e, apesar de dificuldades para nos adaptarmos a isso, adoramos as apresentações, as viagens, e os contatos que tivemos com os fãs. Fizemos o possível para tocarmos no Brasil. Não rolou desta vez, o que me deixa indignado e curioso quanto às razões disso, já que sei da admiração que vocês têm por nós. No entanto, ainda torço para que possamos visitá-los. Isso vai acontecer, cedo ou tarde.

“Acho que temos medo que um cara mude nosso material de tal forma que nos transforme em algo que não somos. É o sentimento mais aterrorizante que há para uma banda.”

Apesar do auxílio de Tue Madsen, a maior parte da produção ficou por conta da própria banda novamente. O Dark Tranquillity tem dificuldades em deixar tudo nas mãos de um produtor externo?
Mikael Stanne:
Tem (risos). Nós somos super-protetores em relação à nossa música. A gente se envolve tanto com o processo de criação que ficamos assustados com a idéia de que alguém que não integra o grupo pode chegar e mexer naquilo que produzimos. Quando precisamos de um profissional para alguns detalhes mais técnicos, procuramos os melhores. Porém, geralmente fazemos tudo por conta própria. Acho que temos medo que um cara mude nosso material de tal forma que nos transforme em algo que não somos. É o sentimento mais aterrorizante que há para uma banda.

Fazia sete anos que você não gravava músicas com vocais limpos. O que o levou a cantar desta forma em faixas como Misery’s Crown?
Mikael Stanne:
Eu preciso sentir-me desafiado pelas músicas. Gosto dos vocais guturais, mas, quando percebo que há a necessidade de uma abordagem menos extrema, não hesito em buscá-la. Estas variações fazem parte do estilo de cada vocalista e senti que determinadas composições de Fiction precisavam de vocalizações limpas. Talvez eu pudesse ter feito o mesmo em Character ou Damage Done, no entanto, veio-me uma sensação emergencial que para extrair o melhor do que escrevemos para certas faixas do álbum mais recente, eu novamente precisaria interpretar desta maneira que você ouve em Misery’s Crown. Não é tão corriqueiro para mim, porém, é um elemento a mais que trabalhamos.

Você repetiu a dose em The Mundane And The Magic, acompanhado por Nell Sigland do Theatre Of Tragedy. Aliás, há muito tempo o Dark Tranquillity não incluía vocais femininos em suas músicas. Fale-nos sobre esta experiência.
Mikael Stanne:
Desde Projector não incluíamos vocais femininos em canções do Dark Tranquillity. O caso de The Mundane And The Magic foi curioso, pois, logo que ouvi as melodias, senti que precisávamos de uma voz mais delicada com toque e sotaque escandinavo para esta música. No entanto, fiz alguns testes com vocais agressivos em casa, e eles ficaram uma porcaria. O grupo também não gostou, então, pensamos em convidar uma mulher. Conhecemos Nell Sigland há muitos anos e ela possui uma capacidade incrível de demonstrar fragilidade e sobrepor a interpretação à técnica e aos cantos líricos. Queríamos exatamente isso e ela aceitou participar da música. Foi ótimo.

Foto por Peter Herneheim

Foto por Peter Herneheim

Você e Nell Sigland cantaram esta música juntos em Milão, Itália, nas gravações do DVD do Dark Tranquillity, certo?
Mikael Stanne:
Sim e depois em Oslo na Noruega. Nunca havíamos tocado esta música ao vivo e, como gravávamos nosso segundo DVD naquela noite em Milão, decidimos preparar um show muito especial, incluindo The Mundane And The Magic no setlist e contando com a participação de Nell Sigland. Foi sensacional. Ela arrasou. Assistimos às gravações e ficamos satisfeitos. Tenho certeza que os fãs curtirão o DVD. Ele está sendo editado e acredito que não demorará a ser lançado. Fizemos uma excelente apresentação.

O Dark Tranquillity gravou três videoclipes de músicas deste álbum, mas excluiu um deles. Por quê?
Mikael Stanne:
Os videoclipes podem nos ajudar muito, desde que passem a mensagem correta daquilo que fazemos e falamos nas músicas. O aspecto visual é poderosíssimo. Gosto de acompanhar todo o processo que envolve a criação de um clipe. No entanto, tivemos pouco tempo para desenvolver idéias para os vídeos de Fiction. O que aconteceu foi que preparamos um vídeo para Focus Shift, o primeiro single, e o resultado nos agradou, apesar de não ter ido ao encontro do que imaginávamos conceitualmente. Então, gravamos Misery’s Crown e foi um desastre. Nós jamais disponibilizaremos esse videoclipe. Felizmente, porém, um amigo nosso da Alemanha, decidiu fazer uma boa edição para a música Terminus (Where Death Is Most Alive) por conta própria, sem custos para nós. Curiosamente, este é o melhor videoclipe dos três (risos).

Falando da formação atual da banda, o que aconteceu para que o baixista Michael Nicklasson deixasse o Dark Tranquillity antes mesmo da gravação do DVD?
Mikael Stanne:
Nós não tivemos problemas sérios. A verdade é que Michael estava conosco há dez anos e já ocorria um desgaste natural no relacionamento dele com o grupo, além de objetivos profissionais diferentes. Ele precisava parar e se afastar da cena musical por um tempo. Acredito que isso será importante para ele e torço para que em breve possamos escutá-lo novamente tocando baixo em alguma banda.

Como tem sido trabalhar com o novo baixista, Daniel Antonsson?
Mikael Stanne:
Excelente. Por enquanto, perfeito. Nós o conhecíamos de seus trabalhos com Dimension Zero e Soilwork e sabíamos de sua capacidade. O mais importante, contudo, era observarmos como ele se entrosaria com a banda. Deu tudo certo. Daniel encarou todos os desafios que o Dark Tranquillity tinha pela frente e se mostrou uma ótima pessoa. No palco, é um músico incrível também. Estamos satisfeitos com a parceria que firmamos com ele e agora nos preparamos para trabalhar em nosso próximo álbum. O clima para o processo de composição é o melhor possível. Há muito entusiasmo e várias idéias legais. Ficaremos mais quietos, em casa, compondo, ensaiando, mas logo voltaremos aos palcos com ótimo e novo material para os fãs.

Assim como outras bandas suecas, o Dark Tranquillity realizou vários experimentos e mudou um pouco seu som em determinados períodos. Contudo, aparentemente em menor escala que Soilwork e In Flames, por exemplo. Conte-nos um pouco sobre estas mudanças para o grupo.
Mikael Stanne:
Há uns nove anos, nós paramos e analisamos tudo que havia acontecido com o Dark Tranquillity. Vimos que portas tinham sido abertas para nós e conversamos muito sobre os rumos que deveríamos tomar. Decidimos manter nossa integridade musical. Testaríamos o que gostaríamos de testar e, se agradássemos às pessoas, ótimo. Se não, esperaríamos, pois uma hora os fãs entenderiam e curtiriam o material. Sempre confiamos nisso. Nosso objetivo, porém, é fazer música de alta qualidade, não necessariamente vender milhares de discos e ser um grande sucesso. Não queremos mudar por causa das pessoas, nem enfiar nossa música goela abaixo de ninguém.

“(…) há grupos que evidentemente entraram nessa por grana, impulsionados por aquilo que domina o mercado e está na moda.”

Por fim, eu gostaria de falar de uma tendência que me chamou a atenção nos últimos anos: muitos conjuntos suecos que influenciaram fortemente a nova geração de bandas norte-americanas hoje seguem justamente o que o mercado nos EUA pede e consome, às vezes, quase copiando as bandas que eles próprios influenciaram. Como você vê isso?
Mikael Stanne:
É de fato curioso. Você observou bem. Há uma relação de troca entre as cenas escandinava e norte-americana. Nós do Dark Tranquillity fomos muito influenciados pelo Thrash e pelo Death dos Estados Unidos. Depois, de repente, vimos várias bandas de lá totalmente inspiradas por grupos como o nosso. Foi natural. Então, veio este outro momento que você citou. As bandas suecas seguindo aquilo que vende e repercute nos EUA. O que acho disso? Simples: há aqueles que mudam e se adaptam tranquilamente, sem fazerem concessões ou abrirem mão de coisas que gostam de tocar, e há grupos que evidentemente entraram nessa por grana, impulsionados por aquilo que domina o mercado e está na moda. Não darei mais detalhes. Você me fez uma pergunta difícil e a resposta logicamente não é fácil. Eu disse o que penso. De qualquer forma, respeito todo e qualquer artista. Quando não gosto do que alguém faz ou vejo que não há sinceridade em um músico, simplesmente paro de ouvi-lo. Acho que é assim que devemos agir.

Por Thiago Sarkis

Sites Oficial: www.darktranquillity.com
MySpace do Dark Tranquillity: www.myspace.com/dtofficial

6 responses

18 02 2009
Lucas

É o tipo de entrevista q dá gosto de ler!

19 02 2009
A.N.D.E.R.S.O.N.

Tá muito foda isso aqui, viciei no blog. Procuro novidades diariamente. \m/

19 02 2009
A.N.D.E.R.S.O.N.

Hoje é meu aniversário uhuuuuu

19 02 2009
Luizinho

Como tem sido raro nos dias de hoje, fico extremamente feliz em ver que ainda existem pessoas honestas no metal.Subiu 666 % no meu conceito =)

7 03 2009
Lucas

Muito Boa a Entrevista, sou Admirador do Trabalho do Dark Tranquillity, e estou eperando ansiosamente sair esse novo DVD, pelo que eu pude ler na entrevista ví que tem varias novidades nele.

Muito bom o Site, Ganharam mais um leitor =)

30 06 2009
alimal

Muito phoda a entrevista, parabens

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