Com pouco público, Blaze enfrenta a sombra do Iron Maiden e sobrevive

14 01 2009

dsc03509Ser ex-vocalista do Iron Maiden parece uma maldição. Paul Di’Anno se rasteja de bar em bar ao redor do mundo tocando sempre as mesmas músicas por quaisquer trocados para sobreviver. Bruce Dickinson, apesar da aclamação da crítica a seus discos solos, não teve outra saída senão retornar à antiga banda, cuja fase também não era das melhores justamente ao dispensar o menos talentoso e técnico de seus três cantores, Blaze Bayley, que, como não poderia deixar mas mereceria ser bem diferente, juntou apenas umas poucas centenas de pessoas no Manifesto num domingo à noite em São Paulo para uma apresentação bastante energética.

Cometendo o pecado de se olhar em retrospecto, não há como entender o motivo de, quinze anos atrás, Steve Harris escolher justo Bayley para substituir Bruce Dickinson. Longe de possuir as qualidade de seu antecessor tanto no alcance vocal quanto no comando do público, era um fiasco certo. Sem tamanha responsabilidade, Blaze se sai bem melhor – e a prova disso é como, num local pequeno, desgraçadamente calorento e cantando apenas músicas originalmente gravadas pelo próprio cantor, sua performance é sólida e estável, mesmo ao longo de duas horas.

Nada disso seria suficiente caso a carreira solo de Bayley comprometesse. Porém, quem já ouviu Silicon Messiah sabe que se trata de um disco digno de ser chamado de clássico do heavy metal, bem como há qualidade de sobra nos dois outros trabalhos gravados com a mesma formação, Tenth Dimension e Blood and Belief. No entanto, o line-up que gravou seu último lançamento, The Man Who Would Not Die, e se apresentou no Brasil em 2009 está num nível técnico bem inferior, mas, felizmente, isso não significou piora significativa na execução de grandes músicas como as energéticas “The Launch”, “Born as a Stranger”, “Kill and Destroy”, “Alive”, além da fantástica “Stare at the Sun” e algumas canções do mais novo álbum, como “Samurai”, “Blackmailer” e as pesadíssimas “The Man Who Would Not Die” e “Robot”, que abriu e fechou o show, respectivamente.

dsc03504Mas a maior parte dos que enfrentaram um abafado calor de verão paulistano para ir ao Manifesto não estava muito a fim de prestigiar a ótima carreira solo de Blaze. Queriam, claro, Iron Maiden. Bayley não os decepcionou e mandou sete canções da ex-banda, todas executadas com fidelidade pelos músicos que o acompanham. De The X Factor, talvez o mais interessante disco da banda britânica nos últimos vinte anos, vieram as grandiosas “Sign of the Cross” e “The Edge of Darkness”, bem como a rápida “Man on the Edge” e a boa “Lord of the Flies”, além de “Virus”, faixa inédita da coletânea Best of the Beast. Apenas duas do mediano Virtual XI, a curta e eficiente “Futureal” e a aclamada épica “The Clansman”.

Talvez seja até um número exagerado de canções da ex-banda, aliviado apenas pelo fato de Blaze ter ficado no palco por exatas duas horas – ainda assim, algumas boas faixas de sua carreira solo não poderiam ser deixadas de lado, como “Ghost in the Machine”, “The Brave” e “Tenth Dimension”. No final, o Manifesto parecia terra arrasada, tamanha a cara de esgotada das pessoas – banda incluída -, suadas e cansadas pelo calor da casa multiplicado pela intensidade de uma performance sem outros atrativos, senão cinco músicos dando o sangue num pequeno palco. E dessa simplicidade e honestidade é feito o bom e velho heavy metal. Pena que pouca gente dê o valor devido.

Por Thiago ‘Hal’ Martins


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7 responses

15 01 2009
Gabiru

Pelo jeito shows cuja estrutura de ar condicionado é ruim tendem a ser bons. Refiro-me ao show do Eric Martin no Blackmore, cheio de fans de Mr. Big suados e fedorentos dado o calor da noite.

Gostaria de ter visto o Blaze, mas a contenção de gastos para fins imobiliários me impediu. No entanto, é bom saber que, mesmo sem público (será que tá todo mundo comprando apartamento?), ele ainda faz um bom show.

Acho o “The X Factor” um baita disco, digno de entrar na coleção de qualquer fã chato de de metal e a primeira apresentação da banda do Sr. Harris com o Blaze no Brasil é muito memorável para mim; foi minha primeira vez vendo o Iron e, apesar de frustrado por não ver o Bruce, eu gostei bastante.

No entanto, nunca entendi por que quiseram o Blaze para a banda. Acredito que deva ter havido um motivo esclarecedor (será que só tinha o André Mattos concorrendo?) e me ponho a pensar qual. Não tenho a menor ideia de qual seja.

Alguém aí sabe explicar?

15 01 2009
Samir

“cuja fase também não era das melhores justamente ao dispensar o menos talentoso e técnico de seus três cantores, Blaze Bayley”

puxa, achei essa opinião um tanto infeliz…

no mais, concordo com tudo o que foi dito sobre a carreira solo de Blaze, que – assim como muitas bandas dentro do estilo – merecia maior destaque e reconhecimento. Mas, sobre ele, além de algumas injustiça próprias do metal, ainda há todo o estigma (para mim injusto) dos tempos de Donzela… e, pior, apenas eu considero o “Blood & Belief” uma obra prima?!? Mesmo dentre os fãs, ninguém costuma pedir músicas deste álbum, ou mesmo citá-lo, etc… além de um Heavy Metal ainda mais diferenciado, a carga lírica do CD é a melhor da carreira do cara!

finalizo dizendo que não haveria, a princípio, atrativo maior do que aqueles 5 caras dando o sangue em cima do palco… ainda mais com o Blaze à frente, que é um daqueles vocalistas diferenciados, que além da qualidade técnica, tb se dedica a interpretar as canções, como se as cantasse pela primeira vez… 2 horas de pura garra, e o público, não interessado ‘apenas’ na fase Maiden, tb deu seu show à parte😀 – só espero que ele tenha percebido isso!

16 01 2009
Rui

Oi cara,

Realmente o Blaze é um daqueles caras que consegue ser mais pesado e convincente em carreira solo do que no Iron. Não sei até que ponto isso pra ele é uma dádiva ou um fardo, mas que as músicas dele em carreira solo são bem melhores do que as que ele fez no Iron, isso são (opinião minha). Espero que ele consiga sempre se superar na carreira solo dele, apesar dos pesares o cara merece (e muito).

Abraços.

16 01 2009
Samuel

Excelente review. Parabens.

Concordo com tudo, principalmente que o X Factor eh o melhor disco do Iron Maiden nos ultimos 20 anos.

Se tivesse sido gravado com Bruce e (principalmente) Adrian seria um classico absoluto equiparavel ao TNOTB.

16 01 2009
Rodolfo Paes

Como o colega Gabiru, também estou em contenção de despesas imobiliárias (comprei uma casa), mas assisti a apresentação do Blaze em 2002 na turnê do Tenth Dimension, que foi simplismente fantástica.
Acho o Blaze um puta vocalista, com uma voz muito firme.
Todos os albúns do Blaze são muito bons, especialmente o Silicon Messiah, que é um petardo na orelha, com músicas extremamente cativantes.
Infelizmente na minha visão escolheram a data e o mês errado para trazer o Blaze a São Paulo (Domingo e Janeiro é foda), mas tenho certeza que quem esteve presente no Manifesto viu uma tremenda aula de Heavy Metal.
Parabéns Blaze e até a próxima (com a minha presença é claro).

16 01 2009
Jaderson

O show do Blaze em Ctba,foi um dos melhores que já vi.
O cara tá cantando muito,dominou a técnica,agitou o povo,e sua banda é realmente muito poderosa.
Um show enérgico e sem dar descanso ao público,do jeito que tem que ser.

E alguem diga ao Steve Harris,que ele está proibido te tocar músicas da era Blaze no Iron.Deixe essa tarefa pro Bayley,pois músicas como The Clansman e Lord of The Flies,soaram muito mais poderosas com ele…

18 01 2009
Cláudio

Estive nos shows de Salvador da turnê de 2002 e nesta de agora, do The Man Who Would…, e só tenho parabéns a dar ao Blaze. Excelente compositor e vocalista! Fui ao show de 14.01 último e sai muitíssimo satisfeito, inclusive porque percebi que o público não estava ali apenas para ouvir Iron Maiden, já que recebia com empolgação as canções da carreira solo do Bayley. A fase solo dele supera com folga, na minha opinião, o que o IM fez de 2001 pra cá (após o BNWorld). Agora é só aguardar o lançamento o TMWWNDie aqui no Brasil, o que ele prometeu durante o show aqui de SSA.

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