Blind Ear – Thijs van Leer (Focus)

19 12 2008

O Blind Ear é certamente a seção mais tradicional e popular da revista Roadie Crew. Colocar um músico ou uma personalidade qualquer para escutar dez músicas diferentes não é exatamente algo inédito no mundo – longe disso -, mas agrada, e no contexto da publicação, sempre chamou a atenção dos leitores que mensalmente aguardam com ansiedade para saber quem será o convidado da vez e quais serão seus comentários.

Assim como qualquer matéria, porém, as pautas do Blind Ear podem cair, por uma ou outra razão; qualidade e quantidade de fotos, por exemplo. Este foi o caso do encontro que registramos com Thijs van Leer do Focus no final de 2002.

Minha estréia na revista aconteceria logo no início de 2003 e pensei ser uma boa idéia fazer imediatamente uma seção tão importante quanto esta com um dos mestres da música progressiva. Errei no material fotográfico, mas isso não nos fez descartar as preciosidades da verdadeira aula que nos deu o líder do grupo holandês. Faltava-nos um lugar adequado para publicarmos isso. Não falta mais.

Spock’s Beard – Long Time Suffering (Álbum: Snow – 2002)
Thijs van Leer: Isso é muito bom. Há uma unidade neste grupo. Uma unidade de tempo, lugar, ação, muito importante para as coisas que eles fazem. Complexo, mas não muito complexo. As vozes são muito bem arranjadas. Musical, absolutamente musical. O início foi o que mais me chamou a atenção. Aquela parte inicial da sessão rítmica é incrível. A única coisa que eu reclamaria por enquanto é que eles precisavam retomar aquela parte.

Thiago Sarkis: Eles fazem isso no decorrer do CD. É um álbum conceitual duplo.

TvL: Ah, tudo bem então! (risos). Não sei o nome da banda. Qual é?

TS: Spock’s Beard.

TvL: De onde eles são? É uma banda setentista?

TS: Não. Eles são norte-americanos, o primeiro CD que lançaram foi em meados dos anos noventa, e este disco que você está ouvindo, Snow, é de 2002.

TvL: Mesmo? É muito bom. Há alguns toques de Gentle Giant e de bandas dos anos setenta. Eles soam como uma banda setentista.

Chick Corea Elektric Band – Eternal Child (Álbum: Eye Of The Beholder – 1988 )
TvL: Isso é tão fantástico que eu gostaria que os outros membros da minha banda também ouvissem. Espere um minuto (N.E.: Thijs levanta-se da cadeira e pergunta ao garçom se é possível colocar o CD no aparelho de som do Hotel). Ouçam isso. De quem se trata? Chick Corea?

TS: Ele mesmo.

TvL: Logo imaginei. Quem está tocando com ele neste álbum?

TS: Frank Gambale (guitarra), John Patitucci (baixo), Eric Marienthal (saxofone) e Dave Weckl (bateria).

TvL: Eye Of The Beholder… a Chick Corea Elektric Band. Vou comprar este CD. Já tive a oportunidade de tocar com Frank Gambale. Ele é ótimo e essa música é perfeita. Eles escutam uns aos outros. São mestres. Você acredita que Chick escolheu o Focus como a banda que fecharia alguns de seus shows?

TS: Não, como foi isso?

TvL: Nós estávamos na mesma gravadora, e a gravadora perguntou a Chick para qual banda ele gostaria de realizar a abertura dos shows. Ele escolheu o Focus e nos tornamos bons amigos. Chick sempre disse que Hocus Pocus era brilhante, uma coisa de gênio. Não concordo com ele (risos). Ele é uma pessoa simpática, e conversamos muito durante aquela turnê. Ele ouviu uma Demo do Dona Nobis Pacem (N.R.: álbum de 1981 lançado pelo Pedal Point, projeto de Thijs van Leer) e me falou que gostaria de gravar aquele material em seu estúdio. Chick é um de meus músicos favoritos.

Tool – Schism (Álbum: Lateralus – 2001)
TvL: Pelo que sei isto é Rock Progressivo (risos). Há ótimas variações rítmicas nesta música. Eles tocam tudo com precisão, mas é um pouco rígido. Não há suingue, não consigo mexer minha bunda ouvindo isso (risos). Poderia se desenvolver em algo mais alegre, penso. Acho que nunca os ouvi.

TS: Eles excursionaram com o King Crimson e são muito famosos principalmente nos Estados Unidos.

TvL: Dá para entender o porquê de eles terem excursionado com o King Crimson (risos). Qual é o nome da banda?

TS: Tool.

TvL: Bem, o baterista é ótimo e segue os outros músicos. Porém, pelo menos nesta faixa, parece-me que ele não pensa muito em contrapontos. É um estilo, de qualquer forma. Ouvindo no CD não me empolga muito. Eles soam muito bravos e agressivos, e talvez eu curtisse mais o show. É como eu disse: são bons músicos e é essa é uma maneira de se compreender a música Progressiva, mas não é a maneira que gosto. Sou amigo de Robert Fripp e do King Crimson, mas não sou realmente fã da música deles.

Dave Matthews Band – Two Step (Álbum: Crash – 1996)
TvL: Não conheço, mas é bom. Eles fazem o que fazem com muita qualidade.

TS: É a Dave Matthews Band.

TvL: Não é muito harmônico, mas é legal. O baixo está seguindo os vocais… Estranho! Teoricamente, ele estaria tocando errado,  mas linhas como essa funcionam às vezes, e aqui está um belo exemplo de como elas podem funcionar. Gostei da banda, eles têm suingue. O problema no Rock é que às vezes sinto que os músicos esquecem a beleza de coisas como as que Chick Corea faz.

Chris Squire – Silently Falling (Álbum: Fish Out Of Water – 1975)
TvL: Fantástico! Meu Deus, isso é maravilhoso! Há uma estrutura bem complexa e a bateria chega e dá groove à música. É outra incrível unidade formada, como na primeira música que ouvi. Quem é?

TS: Chris Squire (Yes).

TvL: Quem toca com ele neste álbum?

TS: Bill Bruford (bateria), Jimmy Hastings (flauta), Patrick Moraz (teclados e piano)… (N.E.: Thijs interrompe…)

TvL: Patrick Moraz? Ele é um de meus favoritos também. Isso é magnífico. A única coisa que me incomoda é que eles não voltam à introdução e a música fica um pouco repetitiva e longa. Deixe-me ouvir a introdução de novo (N.E.: Thijs volta a faixa e escuta seu começo três vezes).

Uriah Heep – Lady In Black (Álbum: Salisbury – 1971)
TvL: Hum… Uriah Heep. Muito fácil, mas você é mau.

TS: Eu? Por quê?

TvL: Nós já excursionamos com o Uriah Heep, e eles são grandes amigos, mas você me fez escutar Chick Corea antes de escutá-los (risos gerais). É bom, sabe? Se você não consegue ou não faz coisas do estilo de Chick, pode encontrar outras maneiras de escrever ótimas músicas. O Heep mostra isso. Você ouve Lady In Black, e percebe o poder da simplicidade. O vocalista é ótimo e eles soam coesos. Acho que é um dom compor coisas que unem pessoas e colocam estádios cantando em uníssono com os isqueiros acesos. Entendo a mensagem e a perspectiva deles. É bom.

Angra – Holy Land (Álbum: Holy Land – 1996)
TvL: Belíssimo. Tem suingue e frescor. Há uma tensão maravilhosa nesta música, e uma estrutura absolutamente orgânica. É um homem cantando!?

TS: Sim.

TvL: Impressionante! O som do piano também é muito bonito. É bom, relaxante. Quem são esses músicos?

TS: É o Angra, uma banda brasileira de Metal.

TvL: Metal? Não consigo ouvir muito de Metal aqui (N.E.: Mostro outras faixas do álbum). Ah sim, agora entendo o que você disse. Parabéns ao Brasil. O Brasil é sempre um exemplo. Venho estudando música brasileira há muitos anos. Não tanto quanto Jan Dumée (ex-guitarrista do Focus). Ele é metade brasileiro, metade holandês (risos).

Happy The Man – I Forgot To Push It (Álbum: Crafty Hands – 1978 )
TvL: Adoro isso, exceto pelo baterista, novamente. Ele simplesmente segue o resto da banda, e gosto de músicos com suingue. Uma banda muito entrosada, concentrada e inteligente, contudo. Não os conheço.

TS: É o Happy The Man.

TvL: (risos) Com certeza muito felizes e engraçados. O nome adéqua-se à música. O humor é elemento importante na música e gosto de grupos que exploram isso. Onde está o humor de outras bandas? Eu gostaria de ouvir mais bandas mostrando este lado.

Jason Becker – Air (Álbum: Perpetual Burn – 1988 )
TvL: Brilhante e muito virtuose. Apenas não concordo com o excesso de notas diminutas. Isso é antigo?

TS: Mais ou menos. Foi lançado em 1988 e é de Jason Becker, guitarrista norte-americano que atualmente comunica-se apenas com os olhos.

TvL: Isso é triste. O que ele teve?

TS: A Doença de Lou Gehrig.

TvL: Triste. Ele parece ser um ótimo músico. É preciso estudar muito Bach para tentar escrever peças desta maneira. Ele poderia evoluir muito. No Brasil, temos o gênio Heitor Villa-Lobos, que criou uma maneira própria e fantástica de compreender Bach. Esta música é muito bem tocada e composta, de toda forma (N.R.: Thijs pega sua flauta e começa a tocar algumas partes de Air para o apreço de todos à sua volta).

Fish – 3D (Álbum: Fellini Days – 2001)
TvL: Lindo! Adoro o início e a maneira como a música se desenvolve. Você percebe que o músico aproveita toda a estrada que a composição lhe abre. Todas as oportunidades. Os vocais são bem masculinos, artísticos e teatrais. Muito talentoso. Acho que já o ouvi antes. Quem é ele?

TS: Fish, ex-vocalista do Marillion.

TvL: Ele escreve ótimas letras e há um ótimo suingue nesta música. Alguns grupos não têm suingue. Acho que é por isso que curto a Black Music. Quanto mais velho, mais admiro coisas assim. Há bandas progressivas que só te derrubam e o levam para baixo, sabe? Fish não é assim e esta música definitivamente mostra isso. Ela tem o mesmo espírito do objetivo que firmei com o Focus: construir um canal de expressões e sentimentos pelo qual você possa passar, nadar, escolher o que fazer. Gosto de horizontes amplos, musicalmente falando. Gosto disso!

Site Oficial: www.focustheband.com

Por Thiago Sarkis


Ações

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6 responses

19 12 2008
Eduardo Benvenuti

Genial! Parabéns!

19 12 2008

Ótimo Blind Ear! Sobretudo os comentários relativos ao metal brasileiro \m/ e a maldade Uriah Heepiana do Sarkis… rs!

19 12 2008
Val Oliveira

Muito bom, devia ter saido na revista!

21 12 2008
Jean Miranda

Sensacional! TVL realmente entende a música de forma ampla e complexa consegue transmitir suas opiniões de forma clara, sem preconceitos contra estilo algum, propiciando uma verdadeira aula nessas poucas linhas transcritas nesse “blind ear”.

16 01 2009
Diego Camargo

Cara, adorei ler essa matéria, o Focus é pouco visado, e gostei dos comentários sinceros do Thijs.

Parabéns🙂

19 02 2009
Perninha

eu também adorei a matéria, acho o máximo quando se mostra um estilo totalmente diferente do que o músico toca…

muito bom mesmo, acompanho direto e gosto muito dessa seção na revista, pena q essa não saiu, mas ainda bem q agora temos lugar pra ler…

se tiver mais manda cara!😀

abraço!

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